domingo, 25 de setembro de 2011

O regresso da Palavra

Folha branca,rasgada e feia,
Que do meu leito espreita.
Esconde palavras à ceia,
Que o fado não aceita.

Uma palavra se liberta
Da prisão de papel subjugada.
Procura uma porta aberta
De volta à mente atribulada.

Corre pela cama bruta,
Seguindo o calor do corpo.
Nada perdida como truta,
E já nao O sente morto.

Filha do turvo vinho,
E mãe, a infância frustrada.
Da família sem carinho.
Da avenida sem estrada.

Suja o lençol por onde passa,
De tinta fresca e delineada.
Marcando com sangue e raça,
A sua viagem nao planeada.

A mente do poeta era a meta,
Aquela mesma que um dia a expulsou
Com a velocidade de uma seta,
Para a folha nua que encontrou.

Mas a folha era escura e fria,
Sem vida,amorfa e fechada.
Reviver era o que queria
O rosto da mulher amada.

As lágrimas aí rolaram,
Lágrimas azuis que libertou.
O lençol puro mancharam
E a palavra ali se desenhou.

Os olhos do poeta mal abriram,
Sentiram logo um enorme calor.
Encadeados com a luz que viram,
Que brotava da palavra amor!

Vítor Horta

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