segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Alentejo


Semente que grita na terra lavrada,
Água que purifica a testa molhada.
Homem que limpa a sepultura sagrada,
Brisa gentia que sopra assustada,
Lua que paira sobre sombra iluminada.
Pérfida luz que sai de madrugada,
Ombro despido de cicatriz tatuada.
Ponte rasgada de paixão enamorada,
Raíz suspensa de inveja libertada.
Auróra coberta de cinza embrenhada,
Pássaro negro de asa rasgada,
Olhos vermelhos de raiva guardada.
Pó que corta a garganta inflamada,
Voz diluída na canção destinada.
Enxada sofrida de suor enferrojada,
Laranjeira ácida de amor perfumada.
Casa perdida de saudade caiada,
Castelo vivido de moura encantada,
Destino vazio de verdade sussurada.
Contrabandista de fronteira passada.
Guadiana que beija a deusa por ele criada,
Sol cálido que torra a herdade cremada.


Vítor Horta

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